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Walter Martínez, inscrito no livro de colossos do jornalismo latino-americano

  • grupomonizbandeira
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Por Gustavo Santos da Silva*


Se eu fosse jornalista queria ser Walter Martínez” (Diego Armando Maradona)



Em meio a uma guerra de dominação total do imperialismo contra a América Latina, Nuestra América perde um dos maiores ilustradores de nossos povos: Walter Martínez, faleceu em 22 de janeiro de 2026, em Caracas.


Walter Nelson Martínez nasceu em Montevidéu, no Uruguai, em 6 de abril de 1941. Na infância ouvia as rádios de ondas curtas, desenvolvendo seu interesse e paixão e engajamento pelo conhecimento da história mundial.

  

Precocemente, aos 20 anos, ganhou notariedade como jornalista quando entrevistou o comandante Che Guevara, durante sua visita a Punta del Este, em 1961, em ocasião da reunião do Conselho Interamericano Econômico e Social da OEA. Ao visitar a Venezuela em 1969, apaixonado pela pátria de Bolívar, para a qual decidiu se transladar e naturalizar, residindo ali toda sua vida. Casou-se com a advogada e musicista Alida Sanoja Maneiro, com quem teria dois filhos, uma delas Érika Sanoja, destacada jornalista independente na atualidade.


Como correspondente de guerra, Martínez, inscreveria seu nome ao lado de inesquecíveis como Martha Gelhorn, Edgar Snow, John Reed, Beatriz Bissio, entre outros. Entre as décadas de 1980 e 1990 Martínez entrevistou as grandes personalidades dos movimentos de libertação nacional e da luta socialista no século XX, acompanhou de perto as guerras civis na América Central forjadas pela contrainsurgência imperialista, esteve no Líbano, na guerra Irã-Iraque, na guerra do Golfo, e também presenciou a invasão do EUA no Panamá em 1989, entre diversos outro episódios a serem memoriados das páginas que nascem pingando sangue dos povos do mundo.


Contudo, foi o programa Dossier sua criação mais magistral, no ar na televisão venezuelana desde 1990 à 2020 com pequenas interrupções. De segunda à sexta às nove da noite com duração de uma hora, Walter Martínez com um gigante globo terrestre ao fundo explicava as causas e motivações profundas dos principais acontecimentos do mundo “En Pleno Desarrollo”.


Ao falar do Dossier, Martínez revela que projetou cada detalhe, desde o uso do mapa, que compro da NASA muito antes de que existia o programa, até a mesa de vidro acrílico transparente, e o próprio conceito de visualização e respeito pela informação e pela análise periódica, com as frases que a sirven de slogan e que tão bem o identificami”.


Dossier mais que um programa informativo, foi um programa formativo, uma das centelhas à incendiar em ideias a Venezuela, componente que devemos levar em consideração para compreender a formação de uma nova consciência crítica que surgiu em um país subdesenvolvido e dependente, que permitiu à eleição do comadante Hugo Chávez Frías em 1998 e a construção do socialismo comunal boliviariano. Em Dossier além das aulas magistrais diárias professadas por sua pesquisa incessante e extremamente rigorosa, Martínez convidou grandes pensadores da América Latina e do mundo como Enrique Dussel, Álvaro García Linera, Ramon Grosfoguel, Juan José Bautista, Jorge Verstrynge, além de líderes políticos como Fidel Castro, Hugo Chávez, Nicólas Maduro, Evo Morales, Rafael Correa e até mesmo Diego Armando Maradona.


Desse modo, Walter Martínez desempenhou uma importante contribuição para o que jornalistas terceiro-mundistas almejavam como Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC), concebida formalmente em 1977 pela Comissão Internacional para o Estudo dos Problemas da Comunicação, na UNESCO, e assinado pelo combativo jornalista irlândes Sean McBride. E que com a criação da Telesur, em 2005 por Hugo Chávez atingiria novos parâmetros, enquanto uma televisão de toda a América Latina, que logo passou a retransmitir Dossier para o mundo inteiro.


No Brasil os governos sociais-liberais-democratas de Lula nunca tiveram coragem de integrar e retransmitir o sinal da Telesur em nosso território. E em grande medida, o golpe que depôs Dilma em 2016, a prisão de Lula em 2018, a consequente eleição de Bolsonaro e a adesão de ideias de extrema-direita por boa parte da população brasileira é também decorrente da negativa dos governos sociais-liberais-democratas em desempenhar a batalha informativa, cultural e das ideias, da negativa de educar o povo, como fizeram Hugo Chávez, Walter Martínez e outros tantos bolivarianos e bolivarianas na Venezuela.


Walter Martínez partiu “de nuestra querida, contaminada y única nave espacial”, porém vive e viverá sempre na luta revolucionária, na luta pela esperança, pela vida, quando escrevemos nossa história, em cada elucidação feita por um professor nas condições mais adversas, na formação de cada militante popular de Nuestra América. Walter hoje está inscrito no livro dos colossos do jornalismo latino-americano é como Rodolfo Walsh, Gabriel Gárcia Marquéz, Eduardo Galeano, Jorge Masseti, García Lupo ou Neiva Moreira, é um bússola inquebrantável.


“Disponga usted de las cámaras, señor director”

WALTER MARTÍNEZ PRESENTE HOJE E SEMPRE!


* Gustavo Santos da Silva é Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense e membro do Grupo de Pesquisas e Estudos Nacionais Estratégicos – Moniz Bandeira

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