Santucho, 50 anos
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Por: Miguel Mazzeo

Tradução do espanhol: Raphael Castelo Branco da Silva
Revisão da tradução: Fabrício Gonçalves
...sua mão possui o dom de transformar as quimeras em realidade, é capaz de criar os fatos.
Witold Gombrowicz, Diario Argentino
Poucas figuras da história argentina foram tão demonizadas quanto Mario Roberto Santucho. A estirpe dos carrascos ensanhou-se contra ele e contra sua memória, porém, especialmente, contra o fenômeno sociopolítico que encarnou; com os vetores históricos que colocou em tensão ou que sintetizou. Por isso, Santucho constitui uma das sombras sarmientinas terríveis de nossa história, sendo talvez a mais perturbadora. Poucas figuras de nossa história revelam tanto rigor na perseguição de uma meta e tão grande confiança em alcançá-la. Poucas figuras de nossa história carregam um mandato tão enérgico. Por isso, Santucho é como o fantasma do pai de Hamlet.
Sistematicamente, negou-se o caráter eminentemente cívico e patriótico da práxis de Santucho, orientada para transformar radicalmente uma ordenação social neocolonial, hierárquica e classista, e, por conseguinte, injusta, repressiva, alienante, reprodutora dos privilégios de uma minoria retrógrada e prepotente. Em sentido contrário, as classes dominantes, alheias a toda racionalidade nacional construtiva, erigiram Santucho em emblema da “subversão apátrida” e tentaram desfigurar sua profunda inserção na história argentina e universal.
Previsíveis e áridos, estúpidos e cruéis, vazios de programática nacional, os cães furiosos tomados por um anticomunismo de amplíssimo espectro foram e são absolutamente incapazes de reconhecer a íntima afinidade que, neste país, costuma existir entre subversão e pátria, sobretudo quando esta última é sonhada pelas classes subalternas e oprimidas como um universo próprio e apreensível, como um recanto acolhedor. Do mesmo modo, exageram deliberadamente o caráter anômalo, que julgam “patológico”, de Santucho, negando-lhe sua estrita pertença a um tempo. Lamentavelmente, existem expressões da esquerda que, diante de Santucho, reiteram os preconceitos dos cães furiosos.
Por outra parte, para eludir análises profundas, apelou-se, e continua-se a apelar, ao mais turvo e encobridor dos recursos, a condenação abstrata de toda violência, “venha de onde vier”. Uma condenação que alimenta uma deriva pacifista hipócrita, sempre cúmplice da violência exercida a partir das posições dominantes, que costumam ser as posições das classes dominantes. O difícil de aceitar, tanto para os setores reacionários quanto para os pretensamente progressistas, é a possibilidade de uma amálgama verdadeiramente popular, não estatal, de força, material e moral, e justiça, a mistura de poder e autoridade.
O que se pretende ocultar é que a guerra, como meio da política, apenas foi deslegitimada como recurso das vítimas subalternas e oprimidas. Enquanto isso, goza de renovada legitimidade quando são os algozes dominantes e opressores que recorrem a ela. Eis aqui outro rotundo fracasso da filosofia ocidental: ela apenas logrou extirpar a cota, necessária e indispensável, de Nicolau Maquiavel, dos condenados e condenadas da terra; contribuiu para o desarmamento dos fracos e fracas, esvaziou as pessoas de astúcias, extirpou-lhes todas as estratagemas.
Santucho foi filho de uma tradição popular argentina, expressão da argentinidade crítica, sensível e revolucionária, patrimônio congênito deste país, pese a quem pesar. Talvez tenha representado o ponto mais alto do processo de desmantelamento da legitimidade liberal, processo do qual, evidentemente, ele próprio foi um de seus filhos diletos. Daí provêm os traços mitológicos que sua figura possui, imunes às manobras que buscam encobri-los. Por isso, agora, queremos resgatá-lo como um momento, dos mais intensos, de uma genealogia, de uma linhagem, e não como uma peça de museu, ou como mais um episódio de uma extensa história de ideais nacionais e de sonhos plebeus malogrados. Não queremos desenterrá-lo como se fosse um deus antigo ou um santo.
Santucho soube ressignificar a resistência dos povos originários do norte argentino contra o colonizador espanhol, primeiro, e contra os latifundiários crioulos ou estrangeiros, mais tarde. Representou uma linha de continuidade de rebeldias e insolências tipicamente argentinas, dos montoneros do século XIX, de algumas expressões do liberalismo e do nacionalismo democráticos, do radicalismo yrigoyenista, das anarquistas e dos anarquistas, das comunistas e dos comunistas, da resistência peronista.
Ao longo de nossa história, essas rebeldias e insolências, com suas cotas de violência coletiva não originária e socialmente justificada, foram as respostas lógicas à violência sociopolítica originária das classes dominantes, expressa em uma injustiça estrutural e endêmica, foram as respostas espontâneas à crueldade das classes dirigentes, sempre propensas a desprezar todo processo democrático que excedesse as meras formalidades em busca de um cerne. Essas respostas não careceram de matizes vingativos diante de várias afrontas históricas, próximas ou remotas, padecidas pelas classes subalternas e oprimidas da Argentina. Existe outro modo de responder ao acúmulo de humilhações? Acaso a vingança, em determinados contextos históricos, não pode constituir-se em uma ação defensiva?
Em um primeiro momento Santucho pensou uma revolução quéchua, língua que aprendeu para alfabetizar lenhadores santiaguenhos e cortadores de cana tucumanos. Pensou também o federalismo (hoje convertido em um pretexto reacionário e em signo da fragmentação do poder político) em chave revolucionária. Embora pouco promovido, o resgate do Santucho liminar, o da Frente Indo-Americana Popular (FRIP), não deixa de ser um exercício válido. Sobretudo porque depois, mais do que uma “superação” dessa experiência, mais do que um “salto dialético”, sobreveio um corte abrupto que levou ao abandono de ideias que, possivelmente, teriam favorecido a constituição de estruturas ideológico-políticos mais amplas e mais eficazes na hora de lutar contra a opressão estrutural, ideias que, provavelmente, teriam permitido conjurar dogmatismos, reducionismos e formalismos, e evitar todo culto à objetividade. Há uma fluidez na língua inicial de Santucho que nunca se malogrou por completo e que merece ser recuperada.
Esse Santucho pedagogo ameríndio, quase “pluricultural”, predisposto a todas as mestiçagens, provinciano, semirrural, de algum modo “tradutor”, reveste-se hoje de novos sentidos.
Depois, já como chefe do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) e como comandante do Exército Revolucionário do Povo (ERP), Santucho abraçou fervorosamente o guevarismo. Sua concepção do processo revolucionário foi somando outros atores destacados, o proletariado industrial, o estudantado (ou a “pequena burguesia radicalizada”). Houve alguns zigue-zagues e não faltaram os exercícios improdutivos. Cabe destacar, por exemplo, as passagens do revisionismo histórico ao mitrismo e do trotskismo à defesa (quase resignada, por certo) da já oxidada União Soviética. Tratou-se de gestos praticamente acessórios que nunca o aproximaram de um estereótipo. Muitas vezes, o pragmatismo revolucionário impôs-lhe condições. Logicamente, uma excepcional vocação de poder fez com que alguns aspectos ideológicos ficassem relegados. Nada disso fez mossa em sua coerência com o horizonte traçado por Ernesto Che Guevara. A autenticidade de Santucho estava blindada.
Santucho não foi um condutor de multidões, nem um grande orador de massas. Não foi nem um teórico, nem um ideólogo, nem o criador de uma doutrina original. Em todo caso, cabe uma discussão sobre seus dotes de estrategista militar, sobre quão criativo foi do ponto de vista bélico, para além de algumas inegáveis proezas “táticas” do PRT-ERP. Essa discussão ficará para outra oportunidade. São outros assuntos os que nos convocam agora.
O certo é que Santucho tendia a equiparar as condições do desenvolvimento dos processos revolucionários. Às vezes simplificava a tal ponto de não diferenciar as condições da Argentina das do Vietnã. Pecava de cartesiano, era algo mecanicista e tendia à essencialização dos métodos. Aspirava a uma “ciência da revolução”, concebida como uma ciência exata baseada nos postulados do marxismo-leninismo. Pensava o mundo como um lugar muito mais simples e direto do que na realidade era.
É evidente que, em certos aspectos, Santucho cometeu os mesmos incidentes críticos da esquerda que, com dialetos literários anacrônicos, o qualificava (e ainda o qualifica) de “guerrilheirista” e o acusava (e o acusa) de expressar uma estratégia “pequeno-burguesa” e um projeto de poder orientado a alçar um “frente policlassista”. Por certo, Santucho também cometeu erros originais que transcendem o reservatório de adjetivos fáceis, flexíveis e abjetos da esquerda antiguevarista.
Mas, diferentemente dessa esquerda, Santucho e o conjunto do PRT-ERP não se abasteceram unicamente no armazém das “linhas corretas”, das histórias meticulosas já confeccionadas e dos artefatos políticos padronizados. Deram um passo fundamental: puseram à prova a validade das ideias. Santucho preferiu equivocar-se com o Che, em vez de acertar com Vittorio Codovilla ou com Nahuel Moreno. Desses últimos erros, desses últimos equívocos podemos aprender muitíssimo.
A concepção da guerra popular sustentada por Santucho estava tingida de certo academicismo. Ele, e praticamente o PRT-ERP em sua totalidade, costumavam cair na sedução das fórmulas. Mas nada disso conspirou contra sua liderança. Porque, paradoxalmente, a força que Santucho chegou a expressar melhor do que ninguém tinha outros suportes, menos ortodoxos, menos racionais: a fé, a paixão e a vontade. Era uma força religiosa, mística, espiritual, no dizer de José Carlos Mariátegui.
Assim como outras organizações revolucionárias de estrutura leninista, o PRT-ERP optou por não perseverar na condição da insurreição civil, a mesma que lhe proveu legitimidade política durante um período, e não pôde contrarrestar as armadilhas elitistas do militarismo, suas dinâmicas alienantes, seus círculos viciosos.
A forma de um exército era a mais adequada para organizar a violência popular, para canalizar a violência libertadora, para romper com os vínculos opressivos? Ficou claro que não. Como evitar que a violência instrumental degenere em violência final e perca justificação social (e utilidade)? Como contrarrestar as agressões estruturais e institucionais sem reproduzir os modelos do opressor e sem contribuir para que a guerra se instale como uma realidade totalizante? Como evitar que a violência engendre sua própria justificação e que as justificações válidas e permanentes da violência sejam deixadas de lado? Essas perguntas não toleram respostas simples, antes habilitam hipóteses.
É um lugar-comum afirmar que as armas conspiraram contra as melhores iniciativas políticas das organizações revolucionárias da década de 1970, que não puderam contrarrestar as fortes tendências ao isolamento social e que, essencializadas, essas armas fracassaram como instrumento de redenção das classes subalternas e oprimidas. O lugar-comum é válido porque é uma verdade incontrastável. Houve um momento em que a guerra deixou de servir à política e a política tentou, de maneira infrutífera e contraproducente, servir à guerra. As armas conspiraram contra o poder popular que emanava da confluência de forças diversas.
Tanto o PRT-ERP quanto outras organizações revolucionárias da década de 1970 produziram realidades contraditórias. Por um lado, gestaram realidades fechadas e, por outro, alumbraram realidades abertas. Por exemplo, em contextos de enraizamento fabril do PRT-ERP, ou em momentos de expansão de diversas frentes de massas, como no caso da Frente Anti-imperialista e pelo Socialismo (FAS), Santucho ratificou a razão das armas acima das armas da razão.
Cabe assinalar, também, a adesão de Santucho ao centralismo e seu acentuado formalismo. À distância, podemos afirmar que lhe sobrou Louis Auguste Blanqui e lhe faltou Antonio Gramsci. Em um gesto esmagadoramente inútil podemos lamentar-nos pelas mestiçagens que não prosperaram, para além de algumas iniciativas isoladas e com escasso poder de convocação, Vo Nguyen Giap e Rosa Luxemburgo ou Tupac Amaru e Vladimir Lenin, por exemplo. A prioridade atribuída à luta pelo poder político desentendeu-se do que era realmente estratégico na construção do socialismo. Descuidaram-se terrenos fundamentais da disputa com o imperialismo e o capitalismo. Como é fácil dizê-lo agora, não é verdade? Envergonha dizê-lo agora, com todos os terrenos da disputa descuidados, à beira do abandono.
O certo é que nenhum catálogo de “erros”, “limitações” ou “exageros” poderá modificar o que Santucho simbolizava e simboliza. Porque é tão grande, tão descomunal o que Santucho simbolizava e simboliza que esses “erros”, essas “limitações” e esses “exageros”, ainda com seus efeitos abrasivos e trágicos, praticamente resultam anedotas menores. Nenhuma análise histórica, quer aspire a reivindicá-lo, ou que queira destruí-lo, poderá negar o impacto extraordinário da presença ou da ausência de Santucho.
Porque Santucho não foi apenas um homem, mas uma época, cujos traços mais salientes foram a vontade, a paixão e a autenticidade. Essa trilogia, tão desprestigiada, julgada como extemporânea, continua sendo indispensável para evitar o destino sombrio que nos espreita neste tempo. Nessa trilogia funda-se a possibilidade de as classes subalternas e oprimidas influenciarem o curso da história.
A utopia de Santucho foi a utopia de toda uma geração forte e iludida. Uma geração decidida a ocupar o centro do cenário da história, sem nenhum interesse em observar os acontecimentos da terceira fila. Santucho expressava a máxima fidelidade a essa utopia. Uma utopia genuinamente idílica. Uma utopia realista, talvez a utopia mais realista de nossa história. Daí sua capacidade de arrasar à força de fé, segurança e autenticidade. Daí sua vontade de vencer. Aqui subjazem os fundamentos (e o caráter cristalino e expansivo) de sua liderança. Aqui é preciso buscar os elementos que explicam seu esquema de condução.
Santucho foi a expressão mais pura de uma convicção e, por isso mesmo, possuía uma imensa capacidade de transmiti-la, com essa cadência sem pressa e essa musicalidade doce típicas das santiaguenhas e dos santiaguenhos. Quantas vezes, em nossa história, a esquerda apelou a essas entonações? Santucho chegou a essa margem por meio de um árduo processo de autoconstrução. Convencia porque era o mais crente de uma geração de crentes. Isso lhe bastava para despertar e elevar a moral, em primeira instância a de suas companheiras e de seus companheiros, e depois a do conjunto das classes subalternas e oprimidas.
Simbolicamente, a grande derrota popular argentina do século XX consumou-se com a queda em combate (ou com a caçada, se assim preferir-se) de Santucho, em uma segunda-feira, em 19 de julho de 1976. Derrota ou fracasso, a esta altura tanto faz. Em nada se modifica o sentido último da grande clivagem que deu início a um percurso das classes subalternas e oprimidas da Argentina pela espiral descendente do infortúnio. Por outro lado, a história não se detém nessas sutilezas. Naquele dia uma patrulha do Exército tomou a sangue e fogo o apartamento da rua Venezuela, em Villa Martelli, na província de Buenos Aires. Santucho, acuado, morreu como o Che. Morreu de sua morte, à frente de sua derrota. Como o Che, tinha 39 anos. Durante cinquenta anos habitamos, com maior ou menor intensidade, os efeitos dessa derrota.
Esta sociedade que habitamos e padecemos, esta sociedade vesga do olho esquerdo (o olho do diabo), é a expressão mais consumada dessa derrota. Cada uma de suas misérias, cada uma de nossas desídias, nossa falta de galhardia, lembra-nos diariamente. Alguns de seus signos mais visíveis são: a violência desumanizadora e sem máscaras das classes dominantes, a calada aceitação dos destinos mais ínfimos por parte do grosso da sociedade, a interiorização da dominação social, isto é, o fatalismo que atravessa as classes subalternas e oprimidas, que já não sabem, e já não podem, diferenciar os campos antagônicos mais substantivos. As opções necessitadas e corroídas que pretendemos contrabandear como “alternativas” no plano político também são um signo da derrota.
As classes subalternas e oprimidas foram expulsas da república burguesa, mais uma vez, em grande escala. Há aqueles que concebem a política como via para habilitar o ingresso nessa república, por certo, a cada dia mais degradada. Embora não abundem, não faltam aqueles que promovem sua substituição por institucionalidades e formas igualitárias e radicalmente democráticas. A pergunta incontornável é: há espaço na república burguesa para as classes subalternas e oprimidas? Tudo indica que esse espaço, como requisito para sua ocupação, não apenas exige dessas classes elevados níveis de submissão, como também tende a estreitar-se cada vez mais.
Esta sociedade, que parece haver perdido toda capacidade de resposta aos desígnios do capital, esta sociedade insegura e frustrada porque não confia nas possibilidades de seus próprios ímpetos, foi-se configurando como um verdadeiro troféu para o imperialismo e as classes dominantes. Embora, à distância, os acontecimentos possam parecer-nos simultâneos, a derrota começara a lavrar-se muito antes de 19 de julho de 1976. Os sinais não paravam de multiplicar-se em meados da década de 1970. Os acontecimentos que conduziam a ela sucediam-se e, embora não faltassem olhares e vozes lúcidas, ninguém pôde reverter essa tendência. A derrota não sobreveio de um só golpe.
A perspectiva histórica permite-nos identificar as concepções do próprio Santucho que contribuíram para a derrota, algumas conjunturais, não prever o refluxo das massas, não recuar a tempo, subestimar as Forças Armadas, descuidar da política, cair em uma guerra de aparelhos que conspirava contra o protagonismo popular etc. O próprio Santucho deu-se conta de tudo isso antes de sua queda em combate (ou de sua caçada). Naturalmente, pesavam também as concepções mais estruturais, praticamente constitutivas do PRT-ERP, por exemplo, o menosprezo da posição defensiva no plano militar, o determinismo da ação, a certeza de entesourar uma verdade transcendente, o dogmatismo fortificado. Houve uma afinidade letal entre as concepções conjunturais e as estruturais.
Mas o certo é que, com Santucho vivo, a ideia de uma derrota não podia chegar a instalar-se por completo. Com Santucho vivo, a derrota era inconcebível para os próprios e para os alheios, para amigos e inimigos. A própria palavra derrota era impronunciável. Pesava a certeza de que, com Santucho vivo, o motor da contradição permaneceria aceso, assim como a esperança de uma vitória dos setores revolucionários. Era isso, nada mais, nada menos, o que Santucho simbolizava.
A figura de Santucho oficiava como garantia em um plano fundamental: o poder será desafiado, o povo (ou alguém representativo, em seu nome) enfrentará aqueles que se empenhem em atormentá-lo, o povo (ou alguma/algum de suas melhores filhas/seus melhores filhos) resistirá a toda imposição de uma ordenação social injusta, não haverá trégua com aqueles que pretendam reestruturar regressivamente o capitalismo argentino, a utopia revolucionária encontrará alguma forma de sobrevivência.
Por isso não vale a pena deter-se demasiadamente nos “erros”, nas “limitações”, nas “exagerações”. Porque, em 19 de julho de 1976, com Santucho não morria, precisamente, o militarismo, o dogmatismo, o reducionismo, o determinismo, muito menos um desvio “guerrilheirista” e “pequeno-burguês”. Com Santucho morria uma época e um sujeito. Morria o país que o havia parido, a trama que o havia urdido como um acontecimento congruente. Morria o país que gerava as possibilidades de pensar e desejar outro país para além da conciliação de classes. Morriam as relações sociais (e as forças sociais) que tornaram possível e altamente representativo um homem como Santucho. Morria uma forma de materialização histórica dos interesses da classe trabalhadora argentina e reposicionava-se o projeto de 1880, recompunha-se a legitimidade liberal. Sem Santucho extinguia-se, além disso, o tempo da vontade e da paixão.
Com Santucho morria uma obsessão e um aguilhão. Morria a confiança em uma vitória popular. A confiança no poder popular. Morria a certeza de que as de baixo e os de baixo podiam mudar o curso da história, apropriar-se dela, inclusive “forçá-la”, porque, em última instância, a história era pensada, equivocadamente, como uma aliada que trabalhava silenciosamente para elas e eles.
Com Santucho morria o reconhecimento coletivo da legitimidade da violência das de baixo e dos de baixo, uma violência que podia ser democrática e digna, enquanto voltava a naturalizar-se a violência unidirecional, de cima para baixo, isto é, a violência das classes dominantes. Naturalmente, será preciso julgar se, em torno dessa legitimidade, faz sentido edificar toda uma estratégia para a “tomada do poder”, ou se convém construir outra coisa.
A história posterior da Argentina mostrou que o espírito insurgente popular não desapareceu por completo, embora tenha se mostrado esporádico, defensivo, desesperado, culposo e despolitizado.
Com Santucho morria uma formidável e inédita vontade política plebeia e sua mística inerente. Morria uma potência transformadora. A potência de massas organizadas, mas não disciplinadas, por conseguinte, massas temíveis. Disso deram-se conta as trabalhadoras e os trabalhadores que, em plena desmobilização acelerada pelo terrorismo de Estado, fizeram um minuto de silêncio por sua morte. Não duvidaram do sentido mais recôndito dessa morte. Souberam que, com essa morte, seu poder para configurar a realidade social começava a diluir-se, que as formas mais desenvolvidas de organização da sociedade, baseadas no planejamento, na cooperação, na solidariedade e na participação, que haviam construído durante décadas, seriam arrasadas. Intuíram que a velha normalidade que as havia dotado de força social e os havia dotado de força social se esfumava e que se impunha outra normalidade que as despojava dessa força e os despojava dessa força. Intuíram o tempo em que se perderiam coisas da ordem do fundamental, o caráter de ameaça, a confiança no desforço, o desejo de vingança. Intuíram um desamparo social, mas, sobretudo, político.
Com imensa lucidez, pressentiram que a morte de Santucho, indefectivelmente, acovardaria muitas e muitos por tempo indeterminado. Deduziam que deixariam de ser temíveis e, portanto, protagonistas. Souberam que essa morte era um dos episódios mais expressivos de um escarmento coletivo e que a paz que sobreviria seria injusta, fundada no abandono das reivindicações populares e na decomposição de diversas instituições da sociedade civil popular.
Com Santucho morria um paradigma militante fundado na coerência, na entrega, no espírito de sacrifício, na heroicidade. Morria o paradigma da militante e do militante que se autoconstrói desse modo porque confia no poder do exemplo, da militante e do militante que assume o pesado fardo de viver como modelo e que é capaz de domesticar a ideia da morte. Morria um paradigma de militância revolucionária. Seguramente várias arestas desse paradigma poderão ser criticadas, por certo, algumas, limítrofes da negligência ou da imolação, o merecem, mas também será preciso reconhecer seu imenso contraste com o paradigma do “militante” estatal, gestionário, brando, esse “militante” cujo terreno não é o da luta de classes, não é o das disputas pelas consciências, mas o da mera “agitação eleitoral”, o de uma intervenção nos conflitos limitada ao “cortejo” e/ou o das “políticas públicas”, esse ativista político acrítico que não aspira a modificar radicalmente uma ordem econômico-social e a mudar a vida porque sucumbiu ao sortilégio da política (burguesa) instituída.
Como ninguém, Santucho, teimosamente rebelde, encarnou o “perigo revolucionário”. Desde a segunda-feira, 19 de julho de 1976, esse perigo deixou de espreitar de um monte, de um cerro, de um canavial, de uma fábrica, de um bairro pobre. Esse perigo foi desaparecendo, substituído por outros perigos mais fáceis de controlar, mais fáceis de reprimir, perigos diluídos em cenários políticos despolarizados e em léxicos beatos e burocráticos. A vida política argentina buscou outros modos de ser impiedosa, modos mais sutis e, naturalmente, unidirecionais. Até a lembrança desse perigo foi extirpada da memória coletiva (embora não descartemos a possibilidade de que algo subsista em algum resquício). Sem esse perigo sobrevieram os dias achatados e intercambiáveis, a vida tornou-se fugidia. As classes subalternas e oprimidas reposicionaram-se “aquém” da conciliação de classes. Sem esse perigo foi-se delineando um mundo lúgubre, o mundo da dominação sem fissuras do capital em seus formatos mais retrógrados.
Como julgar os “excessos de vontade” a partir da carência absoluta dela mesma? Afundadas e afundados no poço da desorientação, sequer podemos acumular a vontade necessária para dar o primeiro passo. Sobrecarregado de condicionamentos, nosso critério costuma ser deplorável. Com que direito criticar a fé desmedida na ação que ilumina e a crença na magia da prática desde esta penumbra que nos dissuade e desde esta paralisia que nos acovarda? Aqueles que têm o sentido da aventura atrofiado não têm o direito de falar de aventureirismo. As críticas ao voluntarismo só podem ter algum grau de legitimidade se forem realizadas desde uma vontade lúcida, racional, desde uma práxis orientada para a autoafirmação. O mesmo cabe em relação à crítica à “sobrevalorização da prática”: antes de exercê-la, conviria cultivar alguma estima, preferencialmente marxista, embora não exclusivamente, pela prática como medida (uma a mais, não a única, naturalmente) da eficácia das ideias. Como falar de “excessos de audácia” e falta de realismo quando os “excessos de prudência” e o realismo extremo se parecem demasiadamente com a aceitação do instituído e com a covardia?
Esta época sem um mandato histórico e desabastecida de práxis crítico-práticas; esta época tão frouxa de expressões e pulsões contraculturais, incapaz de deslumbramentos, com a linguagem embotada e a fantasia atrofiada; esta época que valoriza mais a propriedade privada do que a justiça, que exalta o individualismo e a competição e propõe buscar a satisfação na negação ou na destruição das pessoas; esta época em que os prepostos do capitalismo neocolonial se jactam de não prever os desastres que engendram; esta época que busca erradicar toda consciência da desigualdade e que sequer está em condições de apreciar a práxis primordial de Robin Hood; esta época desencantada, sórdida, banal, aleivosa e insensível tem severas dificuldades para abarcar uma figura tão potente como Santucho.
Acaso morrerá a lembrança de Santucho absorvida pela distância, desfigurada pela obscuridade e estragada pela melancolia? Melhor não andar sem rumo. Será preciso fazer das palavras sementes. Será preciso contar Santucho uma e outra vez. Contar é semear. Será preciso buscar Santucho no fundo da memória, nas vielas do imaginário popular. Será preciso buscar seus rastros semiocultos, cobertos pela folhagem da história. Será preciso seguir travando exigentes batalhas pela memória social.
Talvez, algum dia não muito distante, o olhar de Gertrudes (mãe de Hamlet) perca força na sociedade, e sejam muitas e muitos as e os que desenvolvam a capacidade de ver o espectro de Santucho. Talvez, mais cedo do que tarde, a lenda de Santucho possa ser reativada por uma vontade de poder popular, junto com o belo perigo que acarreta. Talvez a derrota, contra tanta evidência acumulada, não seja tão irreversível quanto parece.
Lanús Oeste, 8 de julho de 2026.




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